Pessoas que me prestigiam!!!

domingo, 4 de agosto de 2013

BAIANIDADE

Nasci na cidade de Boquira/BA,
Boquira é um município brasileiro do estado da Bahia, localizado na mesorregião do Centro-Sul Baiano. Um lugar nascido pela extração de chumbo, zinco, prata e ouro na mina que fica próxima e de pedras preciosas, semi-preciosas. Chega-se a Boquira através de transportes rodoviários, o principal acesso é a BA-156. O município conta com um campo de pouso. São joão Os festejos juninos possuem uma tradição cultural que não acaba nunca, existem Blocos formados pelos habitantes do município e muita diversão. todos os anos existem uma grande festa com atrações de grande porte.

Minha família inteira migrou para São Paulo quando eu tinha 05 anos. Fui criado junto com meu irmão mais velho e primos e primas, todos mais ou menos da mesma idade. Lembro-me muito bem dessa época, das brincadeiras de infância, dos meus primeiros heróis: o Zorro, com o caricato Sargento Garcia; o Nacional Kid e o Super Homem. Lembro até que eu tinha uma capa cinza e que montava num cabo de vassoura e brincávamos no meio do matagal em frente de casa. Lembro que meu tio Ivan tinha uma vitrola e que tocava Beatles nas tardes ensolaradas, em cima da laje.

Fui criado como sendo o filhinho da Mamãe, ela tinha medo que eu me desviasse como meu irmão, por isso fazia questão de me levar à tira colo, para todos os lugares que ia.
Na escola eu era sempre o primeiro da classe, que me dava “status de queridinho”, pelas professoras de Matemática, Português e Geografia; isso me acompanhou até o ginasial na adolescência. Eu não gostava de me sentir diferente dos demais, mas sabia que era diferente. Eu não brincava com os outros moleques, no intervalo das aulas; não brincava de pipa ou de bolinha de gude com os outros moleques da rua onde morávamos. Enfim, todas as brincadeiras que envolviam contato com outros moleques, eu ficava de fora; pois minha mãe achava que assim eu não correria risco de me tornar um marginalzinho.
Também fui criado com uma “mentalidade paulista” que ser nordestino não era bom! Ou que tudo o que vinha do nordeste era ruim... Então na minha cabeça pairavam inúmeros pensamentos negativos, de que eu não era igual aos outros meninos e que era o filho diferente de uma família nordestina. Como fui criado numa sociedade sulista, fui moldado pra pensar como a maioria e sempre ouvia em todo canto, piadinhas discriminatórias contra nordestinos. Cresci nesses moldes e minha juventude não foi diferente. Houve um fato que contribuiu bastante para que dentro de mim esse sentimento, se tornasse forte; foi quando eu fiz 15 anos, minha mãe decidiu fazer uma viagem a Macaúbas, sua cidade natal, com o intuito de me apresentar aos nossos parentes de lá e mostrar o lugar onde nasci. Quando lá cheguei, fui tomado de assalto pelas imagens daquele povo pobre, sem muitos recursos, falando um português cheio de erros e vícios de linguagem, um povo carente de civilização. Logo pensei: “definitivamente eu não pertenço a esse lugar e a esse povo”... Isso só fortaleceu a ideia errônea, que eu fazia a respeito da minha origem.
Não preciso dizer que eu sempre mentia, quando me perguntavam onde eu tinha nascido; aliás, devo fazer umas aspas: “eu tinha vergonha de mostrar meu documento, pois mostrava o nome da cidade onde eu tinha nascido e revelava que não tinha pai”. Uma dor que coroia minha alma, toda vez que eu me deparava com isso!
E demorou exatamente 20 anos até que essa história fosse corrigida em minha vida. Logo depois do exército, aceitei sugestão de minha mãe e decidi partir sozinho para “tentar uma vida nova”, como ela mesma dizia.
Parti com a cara e a coragem, em plena força dos meus 20 anos e fui morar na cidade de Macaúbas. Lancei-me com tudo, logo fui aceito pelos macaubenses e boquirenses, cidades irmãs, onde eu tinha alguns familiares. Comecei a trabalhar auxiliando um engenheiro agrônomo na marcação das terras do açude, depois trabalhei na prefeitura, no cartório eleitoral; onde tive a grata surpresa de encontrar o título eleitoral do meu avô João com a foto dele. Algo inédito para nossa família! Estudei um ano no Colégio Estadual. Participei pela primeira vez de um grupo de jovens, nomeado “Mariápolis” vinculado à Igreja Católica. Fizemos inúmeros passeios às redondezas. Promovendo bingos e quermesses, para arrecadar dinheiro da nossa passagem para o “Encontro Nacional de Mariápolis”, que seria em Pesqueira/PE. Conheci os vilarejos, com suas casinhas de barro e sua gente humilde, cheia de nobreza e alegrias. A sensação foi que pela primeira vez eu fazia parte de uma grande família acolhedora e benevolente! Conheci a culinária local, de pratos saborosos e exóticos. Conheci minhas origens como verdadeiramente ela era. Ganhei identidade! Pela primeira vez me senti um ser humano igual à todos os outros, me senti gente e descobri meus verdadeiros sentimentos, até então amordaçados dentro de mim!
A grande virada aconteceu no Encontro da Mariápolis... Tudo já estava escrito nas estrelas e eu não podia fugir do meu destino. Conheci um soteropolitano de apelido “Lula” que seria o anjo enviado para abrir as portas de Salvador para mim. A mudança ocorreu de forma tranquila e calculada. Lula abriu as portas de sua casa, onde fiquei instalado alguns meses, de bônus ganhei uma “mãezona” Dona Ziza, ganhei irmãos, irmãs, sobrinhos, cães e gatos!
Logo consegui meu primeiro emprego em SSA, a Mesbla, como auxiliar de tesouraria. Sentia-me vivendo em um outro país. Com cultura, língua, costumes, comidas, musicas, tudo muito diferente. A atração foi instantânea como dois imãs..

Finalmente encontrei-me com meu povo, minha gente, meu lugar. Lá eu vivi 06 anos ininterruptos. Só voltei pra Sampa com 27 anos, mas isso é uma outra história!!