Eu somente passei para o outro lado do
Caminho. Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês, eu continuarei
sendo. Me deem o nome que vocês sempre me deram,
Falem comigo como vocês sempre fizeram.
Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas,
Eu estou vivendo no mundo do Criador. Não
utilizem um tom solene ou triste,
Continuem a rir daquilo que nos fazia rir
juntos. Rezem, sorriam, pensem em mim. Rezem por mim.
Que meu nome seja pronunciado como sempre
foi, sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra ou tristeza. A
vida significa tudo o que ela sempre significou, o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora de suas vistas?
Eu não estou longe, apenas estou do outro lado
do Caminho...
Vocês que aí ficaram, sigam em frente, a
vida continua, linda e bela como sempre foi....
(Agostinho, 400 DC)
Alguns de vocês ficaram sabendo que eu perdi um grande amigo
gaúcho, covardemente assassinado pelo próprio companheiro, há duas semanas
atrás. Na mesma semana a mãe de outro grande amigo mineiro, faleceu de repente!
E pra completar tomamos conhecimento que a vó de outro grande amigo também
havia falecido, vitimada de doença! Antes deles, em 2007, meu tio Valdeto foi
vencido pelo alcoolismo! Ninguém está preparado para receber a notícia da morte
de uma pessoa querida. Imaginem recebe-la em dose tripla e na mesma semana.
Punk total! Daí eu, no meu luto, involuntariamente fui levado a pensar na morte
e como ela entrou na minha vida. Recordo-me dos meus 11 anos, eu tinha uma
prima que era um ano mais nova. Lembro-me de nossas brincadeiras e que éramos
como irmãos. Repentinamente ficamos sabendo que ela tinha um problema no
coração e logo veio a falecer. Eu não conseguia compreender como aquilo era
possível. Foi uma tristeza geral! Três anos depois; meu único irmão, morreu num
acidente de transito! Outro baque, principalmente para minha mãe, que sofreu
muito e eu acompanhei de perto. Anos depois, já morando na Bahia, recebi a triste
notícia de que meu tio Airton, havia falecido, debilitado pelo vício da bebida!
No final dos anos 80, um grande amigo se foi vítima da AIDS. Mas o pior ainda
estava por vir. Quando minha mãe foi diagnosticada com câncer, fizemos todos os
tratamentos possíveis, não adiantou; ela se entregou, ficou deprimida e logo a
morte lhe sugou...literalmente! Algo morreu dentro de mim, junto com ela!
Fiquei anos sofrendo, com sua última imagem, cheia de dores e sofrimento! Três
anos depois, foi a vez de minha querida Vovó. No entanto desta vez, tudo foi
diferente! Minha vó estava com idade avançada e um pouco senil. As melhores
lembranças que eu tenho dela, estão bem fortes dentro de mim! Conversávamos
sobre coisas do passado, ela me contava seus segredos e os da nossa família. Eu
ouvia fascinado! Ela adorava quando eu cortava suas unhas, algo que ninguém
fazia! Tínhamos uma cumplicidade; logo eu que cheguei a ser a ovelha negra da
família! Agora, era considerado o melhor neto! Até orava com ela! Estava por perto
quando ela tranquilamente fez sua passagem, tinha a mesma expressão calma e
serena. Também recentemente passei uma das experiência muito dolorosa, com a
morte prematura do meu jovem primo William, com apenas 24 anos. Cheio de saúde,
num certo dia sem nenhuma explicação passou mal, levado ao hospital, foi diagnosticado
com pneumonia. Dias depois entrou em coma onde passou 32 dias vindo a falecer.
Foi triste demais ver um jovem partir de forma tão inexplicável, um duro golpe para
minha tia perder seu amado filho. Graças a Deus, religiosa como ela é teve o
conforto de acreditar que Ele o levou porque precisava dele lá no céu. Mas a
experiência que me redimiu em relação à morte, foi a do pai de uma grande
amiga. Homem letrado, culto, graduado, professor de português do renovado
Colégio Sion, em São Paulo. Ele tinha câncer no intestino e estava desenganado
pelos médicos. Não queria ninguém por perto, mas precisava de acompanhamento 24
horas por dia. Então, quando nos conhecemos, aceitou que eu ficasse ao seu
lado. Cuidei dele por dois meses, dava remédios, alimentação, banho, limpava
sua colostomia e o mais incrível, tínhamos papos divertidos sobre
acontecimentos gerais, mas nunca sobre a morte! Ficava impressionado com sua
tranquilidade diante da iminência da finitude de sua vida! Ele sabia que iria
morrer, mas isso não o abatia! Quando ele piorou e a emergência veio busca-lo,
eu o acompanhei nos seus últimos instantes nesse plano! Estava sedado o tempo
todo, passei a noite com ele. Logo de manhã bem cedinho, fazia um friozinho,
quando olhei para ele, senti que estava partindo. Ajoelhei-me e orei para que
os anjos recebessem sua alma e então uma lágrima solitária, rolou em sua face
de forma doce e suave! Entendi então que a nossa vida é singela e a linha que a
separa é sutil e tênue!
“Quando eu pensar que aprendi a viver, terei aprendido a morrer.”
Leonardo da Vinci (1452-1519)




















